MITOS DO ALÉM
EXPLICADOS PELA CIÊNCIA (?)

Um tipo de experiência alimenta, em especial, mitos e interpretações místicas em todas as culturas – o da quase-morte.
São relatos feitos por pessoas dadas como mortas mas que, de modo espontâneo ou com a ajuda da medicina, voltaram à vida.
Muitas se referem a túneis de luz ou à sensação de flutuar no ar, de modo a ver do alto o próprio corpo. Nos últimos anos, pesquisas médicas, principalmente as realizadas com tecnologia de imagem da atividade cerebral e eletroencefalogramas, puderam explicar de forma científica boa parte desses fenômenos.
FLUTUAR FORA DO CORPO
Enquanto fazia exames numa paciente epilética, o neurologista suíço Olaf
Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, descobriu que a estimulação de
determinada área do cérebro provocava na paciente a sensação de abandonar o
próprio corpo e flutuar pela sala. O ponto em questão é o giro angular
direito, parte do cérebro localizada no lobo parietal. Essa região é responsável
pela percepção espacial que se tem do próprio corpo e do ambiente em torno.
Ao estimular o giro angular com pequenas descargas elétricas, Blanke afetou a
forma como o cérebro da paciente decodificava a percepção do espaço e dela
própria, quebrando a unidade que existe entre o eu e o corpo. Dessa maneira, a
paciente se sentia como se estivesse a flutuar no teto, enquanto seu corpo
permanecia na cama.
SENTIR A PRESENÇA DE ESPÍRITOS
Os médicos já sabem que isso é causado pela falta de oxigenação do cérebro.
Ao estimular com eletrodos o giro angular esquerdo de uma paciente, o médico
Olaf Blanke percebeu que ela virava a cabeça como se procurasse alguém dentro
da sala. "Quando se desligava a corrente elétrica, a presença estranha
sumia", disse Blanke a VEJA. Para o neurologista, o estímulo no giro
angular esquerdo criou uma disfunção no circuito neural que levou a paciente
à ilusão de uma projeção "torta" do próprio corpo, que ela
interpretou como um fantasma.
UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL
Depois de ser ressuscitado, o doente conta ter visto um túnel com uma intensa
luz na outra ponta. A neurocientista Susan Blackmore, da Universidade do Oeste
da Inglaterra, em Bristol, atribui o relato à ilusão provocada pela falta de
oxigênio no cérebro, típica de uma parada cardíaca. As células do córtex
visual responsáveis pela visão central são mais numerosas que as da visão
periférica e, por isso, vêem a imagem com maior brilho. Para a cientista, essa
diferença de luminosidade causa a impressão de existir um túnel com luz
intensa no seu final. "É algo puramente biológico que as pessoas tendem a
ver como místico", disse Susan a VEJA. "Drogas como LSD, quetamina e
mescalina podem produzir o mesmo efeito em algumas pessoas."
CORPO PARALISADO AO DESPERTAR
Quando o corpo atinge um estado de sono profundo, ocorre uma mudança química
nas regiões do cérebro responsáveis pela atividade muscular. O objetivo é
paralisar os músculos para evitar que os movimentos dos sonhos sejam
reproduzidos na vida real. Algumas pessoas acabam despertando durante esse período,
com os músculos ainda paralisados. "A sensação é desesperadora e a
pessoa sente dificuldade para respirar. Não é incomum ela associar esse evento
a experiências espirituais, místicas, demoníacas e até mesmo a encontros com
aliens", explica a neurocientista Susan Blackmore.
TODA A SUA VIDA PASSOU DIANTE DOS OLHOS
Muita gente acredita que no momento da morte se vê uma espécie de
retrospectiva da própria vida. Para os cientistas, essa retrospectiva é uma
alucinação causada pelo cérebro, assim como o encontro com entes queridos já
falecidos ou figuras religiosas. Ocorre que, nos momentos finais, regiões do cérebro
se tornam hiperativas numa última tentativa de compensar a falta de oxigênio,
cujo abastecimento diminui à medida que as batidas do coração se tornam
irregulares. "O cérebro então libera substâncias para proteger os neurônios,
desligando-os", diz Renato Sabbatini, professor da Universidade Estadual de
Campinas. Algumas dessas substâncias agem diretamente nos receptores dos neurônios,
causando o que os médicos chamam de dissociação neural. "É isso que
provoca alucinações", diz Sabbatini.
http://veja.abril.uol.com.br/070207/p_078.shtml